
Quando recebi o e-mail confirmando minha pré-seleção, a coisa que já era séria, ficou ainda mais séria. Sabe quando o Falcão
vira o boné pra trás, pra enfrentar os oponentes?
Eu já vinha de uma fase de estudar pras certificações. Eu e a Liana, desde que soubemos deste evento, fizemos a prova do TOEIC, fizemos o TCFQ, ouvimos horas e horas de podcasts em Francês. Eu tirei duas certificações de SQL Server 2008 e, depois de confirmada a empresa, fui lá e tirei a certificação de ITIL. Não foi fácil.
Eu li o site da empresa, de cabo a rabo. Decorei a visão, a missão, os valores, os endereços, o nome do sistema. Li uma carta gigante sobre contratar imigrantes. Sonhei que havia sido contratado. Passei a semana ensaiando possíveis discursos e respostas em francês. Deixei de fazer uma porção de coisas pra fazer isto.
Então hoje fui à entrevista. Acordei às 6:30, coisa rara, tomei um banho longo, fui até o hotel lá no centro de São Paulo e cheguei exatamente uma hora antes da entrevista. Shit got serious.
Conheci algumas pessoas, o que foi bom pra descontrair antes que a entrevista começasse. Uma repórter quebecoise mais bronzeada que eu por que mora no Rio de Janeiro, uma garota que trabalha com segurança da informação, um desenvolvedor C#, já dono de um CSQ. Gente finíssimas.
A repórter entrevistou a menina de segurança e saiu. O rapaz foi pra primeira entrevista dele (ele, sortudo, tinha 3). Acabou sobrando nós dois ali. Nós, nervosos, conversamos em francês, pra treinar. O que você faz, tem filhos, ah, você gosta de chihuahua! eu tenho dois dachshunds, etc... Foi a vez dela, fiquei sozinho com meus medos, com meu francês que parecia morrendo.
Eu então fui chamado, com 40 minutos de atraso, pra entrar na sala da empresa. Era a hora de virar o boné.
Entrei na sala, fui convidado a sentar. Eu estava tranquilo. O entrevistador começou a falar comigo.
-Houve um erro. Seu perfil técnico segundo o seu currículo parece muito bom, mas nós da [EMPRESA] não temos vaga para você. Além disto, BRAWLRAWLRAWLRAWL
- Perdão senhor, eu respondi, eu não compreendi a última frase.
- Você fala inglês.
- Se eu falo inglês?
- Sim
- Sim, eu falo.
- Seu inglês é melhor que seu francês?
- Sim, é.
- There was a mistake, we are sorry.
Então ele começou a dizer que eu podia ser um profissional qualificado sim, mas que meu nível de francês era muito fraco e que eu precisava melhorar. Ele perguntou se eu entendia tudo o que ele falava, eu disse que quase tudo. Então ele resolveu fazer uma brincadeira pra treinar meu francês já que eu tinha outra entrevista marcada pro dia. Eu não tinha, ele disse que devia ser um engano.

Ele pediu pra eu pegar meu currículo e falar sobre ele. Eu peguei e disse que eu trabalhava a 10 anos nas áreas de demanda da empresa dele e que eu achei que era por isto que eles haviam me chamado. Ele insistiu em me ver falando e no final, me cortou. Disse que eu não tinha nível nem mesmo pra imigrar pro Québec. Que eu ficaria tempo demais procurando emprego por que meu nível era muito ruim. Me deu um folheto da empresa, uma caneta e um cordão de crachá com os valores da empresa, se levantou como que me tirando da sala.
Sem lá muitos argumentos, disse que era uma "domage", agradeci a oportunidade e saí da sala.
Domage é pena ou vergonha? Será que fiz errado? Já nem sei mais. Nem sei se eu não devia era ter sido mais grosso.
Saí meio destruído dali. Eu trabalho a 10 anos com bancos de dados. Quase todas as vagas eram pra banco de dados. Como pode?
Foi bom depois que eu conheci todo esse pessoal que está dando a palestra neste momento, convencendo as pessoas a ir pro Quebec. Conheci o cara do Desjardins, educadíssimo, fala de maneira muito, muito clara e me deu alguns panfletos, o cartão dele, coisa e tal. Conheci o casal do
PICP (a mulher do vídeo, o cara não é esse ai). Ela é bem mais bonita de perto e o marido dela parece uma pessoa que a gente quer ser amigo e tomar cerveja junto.
Conheci também o pessoal do Quebec International, inclusive um Argelino que me convenceu sobre as qualidades da cidade. Gente finíssima também.
Este tempo conversando com as pessoas EM FRANCÊS e português me ajudou bastante. Ainda assim eu saí de lá meio arrasado. Uma coisa é não passar na entrevista por que eu perdi a vaga pra alguém competente. Ou por que eu perdi por que eu sou incompetente mesmo, no sentido correto da palavra. Outra coisa é a pessoa ouvir 3 frases suas em francês e dizer que você, que já não tem o perfil da empresa, não serve pra mais nenhuma outra.
Pelo menos, eu moro em São Paulo e não precisei viajar ou alugar quarto de hotel. Eu pude dar um beijo na minha esposa e nos filhotes antes de sair e me sentir amparado. Espero que isto não tenha acontecido pras outras pessoas.
Bem, Liana, eu queria trazer boas notícias pra casa, mas tudo tem a sua hora. Ça était en dommage. Je suis désolé.